E vejo uma mão ao longe ... A nuvem desfaz-se na chuva que me traz de volta a mim, chego de viagem sem nunca ter partido, sem nunca ter posto pé na estação de comboios, sem nunca ter realmente saboreado o prazer da ida.
Tudo me parece novo, e no fim, tão velho. Cheiro o dia, a luz dança à minha frente. Mas o dia não passa diferente. Permanece. Sempre, o mesmo, sempre. Encalhado.
Descubro que a minha viagem é a quimera da multidão que por mim passa e não vê nem ouve, apenas prossegue em passos automáticos e sorridentes. Preciso de parar, páro para te ouvir. E o silêncio diz tanto. Tão calmo.
É lento o falso passar dos dias quando não se vê a beleza da noite, é lenta a passagem das horas, é lenta a ausência. E quero.
... mas ela não me toca.Há nostalgias assim, que nos cegam, que nos iluminam,
que nos dão asas para depois as cortarem secamente.
Voo. Saboreio a altura, sabendo que caí há muito tempo.

Só porque tenho onde cair quando a noite desce... só porque tenho quem me abrace para resgatar do frio fininho que lá fora se insinua.
Acima de tudo, porque sou um corpo, que pesa e flutua na densidade do meu ser, levado pelas cores que não sei descrever. Esboço caminhos, traço ideias, e sorrio, rio, bebo mais um trago, e porque não? Eu sou eu e o meu corpo e o que o meu corpo comporta é apenas o que eu comporto em mim. Comportar e suportar, e abraçar e amar, nada me fez tanto sentido como esse abraço que resgata.
Vem a seta de selecção ... por onde sigo agora, mesmo???
ONTEMVoltei lá ... tentei falar com ela. E com ele. E com eles. Que são um só. Como eu, que em mim cabem muitas distorções de mim.
Mas não falei, remeti-me ao silêncio de nem saber o que dizer, nem saber, nem tentar. E ela ouviu, eles sorriram e acolheram-me. À saída, a nuvem carregou uma cruz, muda. E o eco surdo das palavras jorrou e inundou toda a ausência do que não é e não foi. Despi o coração e entreguei-o às placas de sinalização. Afastei os olhos de todo o azul, afinal não era uma cruz muda de madeira, mas sim de espinhos, e torturei os meus olhos até à exaustão.
Levo-te. HOJE
Casa. A mesma, a de sempre, a única. Rostos diferentes, gestos diferentes, mas o mesmo rito e a mesma presença. A luz de quem sente que regressa a casa, sem fazer de conta.
O olhar veio e sentou-se ao meu lado direito, onde o banco de madeira terminava. Abraçou-me ao de leve, quase o vi e senti, mas soube que não era preciso.
Falou, contou-me a história de gerações que existiram muito antes de todos os séculos que conhecemos. Repetiu a narrativa dessa viagem magnífica, cheia de dor mas que transborda amor em cada passo. E eu vi, como se entrasse em mim, vi-o ajoelhar-se e servir, vi-o erguer a taça da dor e nas suas mãos adoráveis antevi a traição. Quis gritar-lhe, cuidado, abraçá-lo e protegê-lo, mas o tempo é assim, já passou e a ínfima que sou nada pôde fazer.
Aproxima-se a hora.
Regressei, fez-se tarde e os meus passos ecoavam no escuro e tive medo das paredes nuas. Novamente, senti-o ao meu lado. Sorri, e o cheiro voltou-me à memória, aspirei o ar e o sorriso alargou-se em mim.
Quis que os olhos de quem me vê inconstante me vissem, porque se em mim tudo é maior, em mim o sorriso derramava paz. Paz. A Paz. A minha cruz, a minha paz.
Há demasiado em mim ... mas só Tu sabes.